“Mãe, você reclama de tudo.”
Aquela frase da minha filha de 7 anos me acertou como um soco. Era verdade. Eu reclamava do trânsito, do tempo, do trabalho, da comida — tudo antes das 15h.

Naquele momento, tomei uma decisão radical: passaria 90 dias sem reclamar. Nada. Zero reclamações.
O que aconteceu nos próximos três meses transformou minha vida de formas que eu nunca imaginei.
Por que decidi parar de reclamar
Antes do desafio, eu não me via como negativa. Mas a verdade? Reclamação havia se tornado meu idioma padrão.
Meu dia típico era:
- Acordar reclamando do despertador
- Dirigir reclamando do trânsito
- Trabalhar reclamando de colegas
- Voltar para casa reclamando de cansaço
- Dormir reclamando de preocupações
Pesquisas mostram que adultos reclamam 15-30 vezes por dia. E a maioria no piloto automático, sem perceber.
Quando finalmente vi o quanto reclamação dominava minha vida, fiquei assustada. E determinada a mudar.
As regras do desafio
Inspirada pelo livro “A Complaint Free World”, estabeleci regras claras:
O que contava como reclamação:
- Expressar insatisfação sem fazer nada a respeito
- Fofocar ou criticar pessoas ausentes
- Usar sarcasmo negativo
- Postar “desabafos” nas redes sociais
O que NÃO contava:
- Expressar necessidades e pedir mudanças
- Processar emoções com propósito
- Observar fatos sem carga negativa
- Buscar apoio para resolver problemas
A penalidade:
Cada reclamação = trocar pulseira de pulso + recomeçar contagem do zero.
Meta: 21 dias consecutivos sem reclamar, repetir até completar 90 dias de prática.
Semana 1-2: Foi brutalmente difícil
Troquei a pulseira 14 vezes no primeiro dia.
Não consegui passar 3 horas sem reclamar. Estava chocada.
Meus maiores gatilhos:
- Cansaço físico (maior de todos)
- Fome (“hangry” é real)
- Pressa (tudo virava obstáculo)
- Tecnologia travando
- Múltiplas demandas simultâneas
A revelação:
Reclamar era minha forma automática de conectar socialmente e processar emoções.
Precisei criar novos padrões.
Como substituí reclamações por observações
Desenvolvi uma “fórmula de tradução”:
ANTES → DEPOIS:
“Que calor insuportável!” → “Está quente. Vou tomar água gelada.”
“Odeio segunda-feira” → “Começo de semana. Vou definir uma intenção positiva.”
“Esse trânsito é ridículo” → “Trânsito lento. Boa oportunidade para podcast.”
“Sempre sobra tudo para mim” → “Estou sobrecarregada. Vou pedir ajuda específica.”
“Fulana é impossível” → “Tenho dificuldade com fulana. Vou tentar nova abordagem.”
A fórmula:
- Observe o fato (sem julgamento)
- Reconheça a emoção (se necessário)
- Identifique ação OU aceitação
Semana 3-4: Meu cérebro mudou
Algo extraordinário começou a acontecer.
Meu cérebro, que antes scaneava automaticamente por problemas, começou a buscar aspectos positivos e soluções.
Exemplo real:
Antes: “Ai não, chovendo. Meu cabelo vai ficar horrível. Trânsito vai estar pior.”
Depois: “Chuva. Que cheiro gostoso de terra molhada. Vou usar aquela bota que adoro.”
Mesma situação. Experiência completamente diferente.
O que a ciência diz:
Quando você reclama cronicamente:
- Encolhe o hipocampo (resolução de problemas)
- Aumenta cortisol (estresse)
- Fortalece amígdala (ansiedade)
Quando você interrompe esse padrão:
- Hipocampo se fortalece
- Cortisol diminui
- Novas conexões neurais se formam
Eu estava literalmente reprogramando meu cérebro.
Mês 2: Meus relacionamentos mudaram
Reações positivas:
Meu marido: “Você está mais leve. Gosto de estar perto de você novamente.”
Isso me partiu. Eu não sabia que minha negatividade havia criado distância.
Colegas: “Reuniões com você são mais produtivas. Você vai direto às soluções.”
Reações negativas:
Algumas amigas: “Você ficou chata. Tipo, santa demais?”
Uma colega: “Virou uma dessas de pensamento positivo? Irritante.”
A parte difícil: Perdi amizades
Algumas amizades eram baseadas em reclamar juntas. Quando parei, elas evaporaram.
Doeu. Muito.
Mas revelou algo importante: eu investia energia em conexões que me drenavam, não nutriam.
As amizades verdadeiras se aprofundaram. E criei espaço para relacionamentos mais autênticos.
Mês 3: A transformação completa
No dia 60, medi minha felicidade com questionários científicos:
Meus resultados:
- Satisfação com a vida: +34%
- Felicidade geral: +41%
- Bem-estar psicológico: +28%
Não eram apenas números. Eu SENTIA a diferença:
Físico: ✓ Melhor qualidade de sono ✓ Menos dores de cabeça ✓ Mais energia
Emocional: ✓ Menos ansiedade ✓ Muito menos irritabilidade ✓ Mais resiliência
Mental: ✓ Maior clareza ✓ Melhor foco ✓ Mais criatividade
Relacional: ✓ Conexões mais profundas ✓ Menos conflitos ✓ Comunicação melhor
O maior aprendizado
Problemas não desapareceram. Minha resposta mudou.
Exemplo: Pneu furou antes de reunião importante
Antes: “Mas é CLARO! Justo hoje! Sempre eu! Que azar! Dia arruinado!”
Depois: “Ok, furou. Frustrante. Vou ligar avisando atraso e acionar seguro.”
A diferença?
Não era negar emoções. Era:
- Reconhecer sem amplificar
- Processar sem se afogar
- Focar no que posso controlar
- Agir ao invés de ruminar
6 meses depois
Hoje, completei mais de 6 meses desde o desafio.
A transformação permaneceu:
Não sou perfeita. Ainda reclamo ocasionalmente. Mas agora:
✓ Percebo IMEDIATAMENTE quando começo ✓ Interrompo o padrão antes de virar espiral ✓ Escolho conscientemente processar diferente ✓ Minha felicidade base é muito mais alta
Minha filha agora diz: “Mãe, você sorri muito mais.”
E ela está certa.
Como você pode fazer este desafio
1º Passo: Consciência
Rastreie quantas vezes reclama por 3 dias. Sem julgamento. Apenas observe.
2º Passo: Compromisso
Decida duração do desafio (recomendo 30 dias para começar).
3º Passo: Ferramenta física
Use pulseira, anel ou elástico. Algo que troca de pulso a cada reclamação.
4º Passo: Aprenda a diferença
Reclamação vs. expressar necessidade legítima.
5º Passo: Substitua
Use a fórmula: fato neutro + emoção reconhecida + ação ou aceitação.
6º Passo: Seja gentil consigo
Você VAI reclamar. É reaprendizado. Comece de novo sem drama.
7º Passo: Encontre apoio
Idealmente com alguém fazendo junto. Mas cuidado: não transforme em sessão de reclamação sobre como é difícil não reclamar!
Recurso útil
- Diário: Registre padrões e gatilhos
Perguntas que recebi
“Isso não é tóxico positivismo?”
Não. Você ainda expressa emoções, processa dificuldades e pede ajuda. Só para de ruminar negativamente sem propósito.
“E se eu precisar desabafar?”
Desabafar com propósito (buscar perspectiva/apoio) é diferente de reclamar em loop. Um nutre, outro drena.
“Meus amigos vão achar estranho?”
Alguns vão. E isso revela muito sobre a fundação dessas amizades.
“Quanto tempo até virar automático?”
Pesquisas sugerem 66 dias em média. Para mim, 90 dias criou mudança profunda.
Meu convite para você
Se minha filha não tivesse dito aquela frase, eu ainda estaria reclamando automaticamente, drenando minha energia e afastando pessoas que amo.
Um desafio simples mudou literalmente minha vida.
Não precisa ser 90 dias. Comece com 7. Ou 21. Ou 30.
O importante é começar.
Porque do outro lado da reclamação automática, existe uma versão sua mais leve, mais feliz, mais presente e mais poderosa.
Ela está esperando por você.
Comece amanhã. Sua filha (ou filho, parceiro, amigos) vão notar a diferença. E você vai se surpreender com quem pode se tornar.
